O Paradoxo Cloverfield (2018)

Por Nagib Salha

Todos os fãs da franquia Cloverfield ficaram ansiosos após a divulgação de um teaser durante o Super Bowl 2018. Mas, a grande surpresa foi a disponibilização do longa no serviço de streaming da NETFLIX, até mesmo porque o lançamento nos cinemas estava previsto para o mês de abril. Porém, isso acabou provocando certa desconfiança. Será que não foi um ato desesperado para repercutir um filme que não alcançaria sucesso no circuito comercial dos cinemas?

O Paradoxo Cloverfield apresenta uma história de ficção científica que aparenta ter unido um conjunto de retalhos descartados por outros filmes do gênero. Cientistas astronautas trabalham constantemente para salvar o planeta. Um acelerador de partículas é testado várias vezes para criar uma fonte de energia ilimitada e isso pode prevenir uma guerra mundial. A Terra sofre com uma crise de energia muito grave colocando todos os países em conflito. Durante um dos testes, ocorre um acidente que coloca os tripulantes da estação espacial Shepard em uma outra realidade. Agora eles devem lutar para sobreviver lidando com os horrores desencadeados pelo acidente.

O filme ocasionalmente lida com questões convincentes, como por exemplo, o que poderíamos sacrificar para salvar a humanidade. Mas, existem momentos bastantes desnecessários e exagerados. Donal Logue (muito conhecido por seu personagem Harvey Bullock da série Gotham), nos entrega uma explicação forçada para a existência do monstro do filme original. O vídeo, assistido pelo tripulante brasileiro Monk (John Ortiz), foi na verdade um emaranhado de palavras sem nenhum impacto que ficaram literalmente perdidas no espaço. Exatamente por lidar com paradoxos e realidades alternativas, o sentimento de que poderia ter sido melhor acabou criando um momento esquecível.

O novo longa se trata de um prequel (pré-sequência ou prequela) e tentou transmitir uma sensação de independência dos anteriores (Rua Cloverfield, 10 e Cloverfield – Monstro) ficando sutilmente conectado ao sucesso de 2008. O elenco é bom, mas o roteiro realmente não ajudou. Gugu Mbatha-Raw se destacou como Hamilton, com cenas de vulnerabilidade emocional e conflitos. A misteriosa Jensen, personagem interpretada por Elizabeth Debicki, agradou até chegar ao ponto de se tornar previsível. Os ótimos David Oyelowo e Daniel Brühl infelizmente foram desperdiçados.

Muitos elementos forçados ocorreram na história paralela e sem sentido na Terra. Como por exemplo, o marido de Hamilton que encontra uma criança perdida no meio ao caos e os dois acabam realmente sem nenhum impacto real na história. Ao contrário dos anteriores que também tiveram alguns tipos de acúmulos, porém bem encaminhados para uma possível revelação ou evento. Pode ser que no próximo haja uma explicação para isso. Um outro elemento que também não funcionou foi o esperado “susto”. Há momentos estranhos e divertidos, com pequenas criaturas se movendo por dentro do corpo humano ou até mesmo um braço decepado completamente independente, mas não passa disso.

O Paradoxo Cloverfield me passou apenas um alívio de uma conexão direta com alguma explicação para os acontecimentos anteriores, apesar de incoerente. Isso transforma o filme no seu “número 1” e, a partir daqui, não precisamos passar por tudo isso novamente. Mas, aquele sentimento terrível de que uma história melhor e mais original poderia ter sido entregue acabou amargando a sobremesa entregue na última cena. A Paramount visualizou um potencial fracasso nas bilheterias e entregou o filme (de forma inteligentíssima) para a Netflix.

O Paradoxo Cloverfield (2018) – The Cloverfield Paradox. Dirigido por Julius Onah. No elenco: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Daniel Brühl, John Ortiz, Chris O’Dowd, Aksel Hennie, Ziyi Zhang, Elizabeth Debicki e Roger Davies. EUA. Duração de 102 minutos.